O que o San Antonio Spurs, franquia da NBA, tem a ensinar ao mundo corporativo

Lucas Marin
7 min readJul 20, 2018

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Quem acompanha o basquete mundial, sobretudo a NBA, deve conhecer a franquia de basquete Texana e reconhecer seu sucesso mesmo estando em um mercado pequeno e disputando regularmente contra mercados muito maiores, como as franquias de Los Angeles Lakers, Golden State Warriors e Boston Celtics, que tiveram grandes equipes nas últimas décadas.

A franquia de San Antonio ostenta entre todas a maior porcentagem de vitórias em toda a história da liga. Dos últimos 20 anos, em apenas em 2 oportunidades ganhou menos que 50 jogos e em todas passou para a fase de playoffs, se sagrando campeões em 5 delas.

Pode parecer algo simples mas aqui vão algumas considerações: Existem diversas regras que foram introduzidas para garantir o equilíbrio entre as franquias. Com isso, estas franquias acabam entrando em um ciclo vicioso.

O time começa a perder jogos e ficar de fora das fases finais, com o desempenho ruim a franquia acaba tendo direito às primeiras escolhas pelas jovens revelações. Em algum momento essas revelações se firmam como grandes jogadores e a franquia o cerca de outros bons talentos até que volte a disputar por títulos.

Então esses jogadores se aposentam, mudam de franquia e o ciclo recomeça. É assim que as franquias passam por momentos recheados de jogadores lendários e então, anos depois, estão jogando em ginásios vazios com um time desprezível.

Ok, você deve ter entendido, há 20 anos esse ciclo não acontece com os Spurs. Por quê? O que eles fazem que vão contra a lógica básica da liga? Como se manter em alto nível por tanto tempo? O meio corporativo e até mesmo pequenos negócios tem muito a aprender com essa incrível franquia de basquete.

Trago abaixo 4 ensinamentos deixados pelo Spurs e como podem ser aproveitados para o meio empreendedor.

I — A qualidade do produto supera qualquer trabalho de marketing

É bem verdade que o marketing vem se aperfeiçoando cada vez mais para atender as necessidades do mercado, promovendo diversas ideias criativas e produzindo peças incríveis junto da publicidade. Acontece que as empresas estão se preocupando demais com as suas campanhas de divulgação e tirando o foco do produto que oferecem.

Não há campanha que venda mais que a qualidade do produto/serviço oferecido. Pode parecer óbvio à primeira vista mas este problema se repete cada vez mais. Basta analisar diversas startups com uma campanha super interessante de divulgação e uma ideia mal desenvolvida, pouco embasada e despreparada para ser colocada em prática. O marketing é uma ferramenta auxiliar extremamente importante, mas não passa de uma ferramenta auxiliar.

Ter uma taxa de resposta maior que a de seus concorrentes no Facebook nem de longe vai ser garantia de sucesso, é preciso pôr isso em mente quando se tem um negócio.

O Spurs ensina isso muito bem pois apesar de todo o sucesso como uma franquia de basquete, tenho certeza que até mesmo aquelas pessoas que acompanham o esporte de perto pouco ouvem notícias do time. Menos ainda veem jogos sendo transmitidos em canais de TV mais tradicionais. Menor ainda é a possibilidade de a cidade de San Antônio se tornar um ponto turístico atrativo.

A verdade é nua e crua, o Spurs é uma franquia de basquete e mais importante do que estar aparecendo nas capas de jornais esportivos ou ser comentada nos programas é ter um bom basquete em quadra.

Uma empresa é a organização. Os funcionários são os jogadores. Foque sua atenção em apresentar um bom basquete.

II — Tenha uma cultura organizacional sólida

Em algum momento o lendário técnico do Spurs Gregg Popovich teve um click em sua mente que transformou a franquia de San Antonio para como ela é pelos últimos 20 anos(sim, Pop é o treinador do Spurs há 20 anos). Por quê montar um esquema de jogo com base nos jogadores se eu posso criar o esquema de jogo sólido e fazer os jogadores se acostumarem com ele?

E é isso, a franquia teve inúmeros jogadores pelos últimos 20 anos, mas jogou exatamente da mesma forma. Muito mais fácil adaptar um jogador a uma equipe do que adaptar uma equipe a um novo jogador. Isso é parte de uma cultura muito forte criada pela franquia.

Mais do que isso, as características de não oferecer contratos com valores extremamente altos para jogadores comuns, priorizar atletas que tenham um perfil de grupo para eliminar o estrelismo e uma política de evitar trocas de atletas, permanecendo com seus jogadores até o fim de seus contratos são parte desta cultura.

E agora todo mundo sabe que é assim, quem se encaixa ao perfil certamente vai se interessar em jogar pela franquia. Quem pensa diferente disso vai se manter longe e isso é muito bom pra organização que evita situações estressantes com indivíduos que em algum momento vão querer questionar o processo.

As empresas precisam ter uma cultura própria para garantir que seus colaboradores tenham um objetivo em comum, que as pessoas certas se envolvam com a instituição e não hajam conflitos de interesses.

Um funcionário insatisfeito com a forma como as coisas acontecem dentro de uma organização deixa de ser um colaborador e se torna um problema, um estresse facilmente evitável.

Além disso tudo, novos integrantes da organização serão capazes de se adaptar muito mais rápido e produzir muito melhor.

III — Estar atento a toda e qualquer boa oportunidade

Nos últimos 20 anos, o San Antonio teve 4 jogadores que se destacaram e foram os pilares para o sucesso ao longo do tempo. São eles Tim Duncan, um jovem tímido vindo das Ilhas Virgens Americanas, Tony Parker, um belga naturalizado francês, Manu Ginóbili, um argentino que deu seus primeiros passos no basquete hermano antes de ir ao basquete profissional italiano e só então chegar até a NBA e Kawhi Leonard, um menino que perdeu o pai aos 16 anos e viu no basquete uma saída para a sua vida difícil. Dos 4, apenas Tim Duncan demonstrava ser um líder nato, os outros 3 foram verdadeiros achados.

Lembra quando comentei sobre as franquias que ficarem de fora dos Playoffs terem as escolhas mas altas por jovens prospectos? Pois é, a última vez que o Spurs ficou de fora dos Playoffs foi na temporada de 1996–1997, o que garantiu a primeira escolha, que acabou sendo Tim Duncan, de sucesso instantâneo.

Tony Parker foi resultado da #30 e última escolha e foi fundamental para todos os títulos conquistados, se tornando parte da história da franquia.

Manu Ginóbili foi nada mais nada menos que a #57 escolha. Apesar disso formou com Tim Duncan e Tony Parker um dos trios mais consagrados da NBA.

Muitos anos depois, em 2011, se juntou ao grupo o jovem Kawhi Leonard, escolha de número #15, porém por outra franquia, o Indiana Pacers. Porém o Spurs via no garoto uma grande aposta e no mesmo dia em que foi escolhido foi enviado pelo Pacers ao San Antonio em troca de quase nada, afinal de contas, era apenas uma aposta.

Acontece que Kawhi se tornou o jogador mais jovem a se tornar melhor jogador das finais e ganhou prêmios de melhor defensor em anos consecutivos além de concorrer ao prêmio de melhor jogador da temporada.

O San Antonio garimpa, enxerga oportunidades e arrisca nelas. O risco nunca é tão alto quanto pode vir a ser o seu retorno. Fora estes citados que se tornaram parte da história da franquia, muitos outros figuraram em um papel menor.

É preciso estar atento a toda e qualquer oportunidade seja ela pequena ou imperdível. Muitas vezes uma pequena aposta pode vir a ser uma grande parte do futuro.

E essas oportunidades podem vir de infinitas maneiras, é preciso estar sempre atento e pronto para apostar suas fichas, afinal de contas a vida real não se trata de sorte e azar mas sim de competência e visão estratégica.

IV — Mantenha um olho no presente e um olho no futuro.

Os ciclos que os clubes da NBA passam são um reflexo de um pensamento de tudo ou nada. Quando o time possui um ou outro jogador diferenciado volta-se o foco para o agora e muitos investem o máximo possível para aproveitar o momento de tornar este time vencedor, custe o que custar.

O tempo passa, o time se despedaça, começa a perder e então todos os olhares se voltam para o futuro, afinal de contas porque não perder um pouco mais para que no futuro seja possível montar um bom time novamente?

O San Antonio faz diferente. Formam um time competente para o agora ao mesmo tempo em que traçam um plano para o futuro. Estão ano após ano integrando ao seu elenco jogadores jovens e desconhecidos que possam se desenvolver no elenco profissional para que no momento oportuno tomem seu merecido espaço.

Empresas precisam ter este mesmo senso de presente e futuro. É preciso ser lúcido, regular e manter sua posição. É preciso fazer o seu melhor para que as coisas funcionem corretamente hoje. E que estejam funcionando corretamente daqui 1 ano. Ou 3 anos.

É preciso ter um planejamento a curto, médio e longo prazo e revisitá-lo sempre que possível para garantir que tudo esteja seguindo seu devido caminho.

Mais do que isso é preciso entender que não adianta dar um passo maior que a perna e também não é aceitável parar de caminhar. E isso vale tanto para grandes empresas como para um pequeno negócio familiar.

Esse é um importante exemplo dado por uma franquia de basquete que vai contra a naturalidade dos ciclos. Quando se fala em um negócio não existe este ciclo e é por isso que muitos acabam indo à falência.

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Lucas Marin
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Written by Lucas Marin

Escritor, sonhador e viciado em criatividade.

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